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ISN - AMIGO DO LAGO DA SERRA DA MESA |
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ÁGUA DOCE |
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| POR QUE TILÁPIAS NÃO! | |
| Serrano Neves | |
| Serrano Neves é Procurador de Justiça do Ministério Público de Goiás e Diretor do Instituto Serrano Neves – PROJETO AMIGO DO LAGO DA SERRA DA MESA – www.serrano.neves.nom.brEndereço eletrônico: serrano@cultura.com.br | |
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Pescador desde os sete anos de idade, com alfinete dobrado em linha de carretel encerada amarrada num ponteiro de taquara, as “carazinhas” (acarás ou carás) eram o remédio quando os lambaris estavam ariscos. Bastava um curva de água mais mansa, inda que rasa mas com vegetação submersa, para ferrar as bichinhas, uma atrás da outra. Pegar cará era “desespero” de pescador, dado que os lambaris e os piaus eram os mais apreciados: fritos bem crocantes com arroz branco. Os anciãos da região de Paracatu – pude conferir essa lenda em outras regiões – acreditavam que os carás “vinham na chuva”. Explico: escavavam um tanque para coleta da água da chuva, distante do córrego, e no ano seguinte lá estavam as carazinhas, que só podiam ter vindo do céu, desconhecido que era, para eles, que os ovos aderiam aos pés das aves que passeavam na lama – quando as águas baixavam – em busca de alimento e, acidentalmente pousando na beira do tanque, tinham os pés lavados e os ovos ali eclodiam. Essa foi a minha primeira lição de infestação e dominação, vez que era uma verdadeira festa pescar carás (umas 100 por hora, em média) e uma demonstração de habilidade conseguir pegar lambaris ou piaus nos corpos hídricos dominados. Esse cará é a tilápia brasileira que não tem o mesmo “rendimento” da tilápia nilótica, e tanto não tem que não existem criações comerciais dessa tilápia autóctone. A tilápia nilótica rende mais, e rende mais não porque é estrangeira, mas porque, oriunda de uma região inóspita, a natureza a adaptou para essa inospitalidade – assim como a natureza colocou pulmões no bagre africano para que respire o ar atmosférico e sobreviva apenas com umidade na pele, enterrando-se no fundo dos lagos de onde, na África, são caçados como se caçam tatus no Brasil: cavando com enxadão. Ora, ora, um animal que a natureza preparou para comer de tudo e reproduzir em altíssima escala, como forma de assegurar a sobrevivência, quando encontra hospitalidade e abundância de alimentos “amarra o burro na sombra”, como diziam os pescadores anciãos de Paracatu, ou “toma conta do pedaço” como diriam os jovens de hoje. O animal é tão poderoso que no Nordeste é criado em água salobra. Claro que é uma opção econômica formidável, e qualquer um pode ficar rico criando tilápias nilóticas, desde que não se importe com o meio-ambiente. Mesmo em tanque escavado as cautelas recomendadas são: barreiras para contenção de vazamento do tanque por caso fortuito ou força maior, filtros para o esgotamento na despesca, e rede de cobertura para evitar que as aves pescadoras transportem animais e os deixem cair em outra água durante o vôo. Menor estrutura é necessária para criar cascavéis. Desta forma, o escape das nilóticas para um sistema hídrico pode comprometer a ictiofauna nativa. Não conheço que exista alguma forma de controlar o crescimento da espécie nilótica em sistemas hídricos abertos nos quais a intervenção humana não possa alcançar eficácia: bacias hidrográficas e reservatórios de grandes dimensões. Admito que a configuração dos sistemas hídricos possa imprimir um certo confinamento, em função de “habitats” propícios, mas não existe segurança de que outros “habitats” propícios não sejam criados pela natureza ou que não aconteça a migração. Admito, também, que a existência de predadores possa controlar o crescimento da espécie, mas não existe segurança no domínio da relação “predador x presa” quando soltos na natureza, conquanto o equilíbrio possa ser obtido no modelo matemático. E quando falamos em grandes dimensões estamos falando num projeto do Governo que pretende despescar 2.400.000 toneladas de tilápias nilóticas criadas em tanques-rede no Lago da Serra da Mesa, sendo possível calcular que são mais de nove bilhões de peixes/ano, sendo que destes, 96 milhões seriam fêmeas adultas oriundas do erro de 1% (um por cento). Por falta de parâmetros estou estimando que 1% (um por cento) das fêmeas adultas, ou seja, perto de 1.000.000 de animais, desove no tanque, por estresse (1), e seriam cinco bilhões de ovos que por causas naturais tenham uma taxa de fertilização de 1% (um por cento) que poderia resultar em 50 milhões de animais, cujos 1% um por cento) de sobrevivência representa a introdução de 500.000 novos indivíduos de espécie exótica invasora.
Adicione a esse número o escape e o abandono de tanques.
Claro que não existem estudos científicos nos quais eu tenha me baseado, mas, pelo princípio da precaução, qualquer taxa de introdução de indivíduos de espécie exótica invasora, em relação ao volume projetado, é preocupante, num lago cuja superfície de 1.780 quilômetros quadrados abrigará 18 quilômetros quadrados de parque aquícola, ou parques aquícolas, vez que são muitos os municípios lindeiros interessados.
Sem nenhuma fiscalização ambiental eficaz desde seu enchimento, não é de acreditar que de uma hora para outra seja feito monitoramento ambiental de uma espécie em 1.780 quilômetros quadrados. De acordo com exemplo na literatura, a espécie poderia levar de 20 a 25 anos apenas para se estabelecer, tempo durante o qual seria possível dizer – principalmente através da mídia – que “não aconteceu nada”. De 20 a 25 anos em diante a dominação poderia ocorrer entre 5 e 10 anos. A grande pergunta é se valeria o risco da extinção de algo no entorno de 70% das espécies nativas em troca da economia gerada pela espécie alóctone, sendo que a água do Lago da Serra da Mesa poderia, neste mesmo prazo, ser comprometida pela acumulação de solo/fertilizantes/agrotóxicos oriundos da produção de massa verde para álcool e biodiesel, e os efluentes líquidos urbanos e industriais, tudo carreado pelos cursos da bacia adutora e seus principais rios Maranhão e Almas cujo curso se dá por regiões em desenvolvimento. Assim, o futuro da qualidade da água fica enegrecido, transferindo uma sensação de perda de um corpo hídrico cujo potencial sócio-ambiental representa o desenvolvimento da região através da piscicultura com espécies nativas, turismo e outros usos. Inclusão social ou econômica com tal grau de risco foge do campo da razoabilidade social, econômica e ambiental, e causa a impressão de que o Governo Federal tergiversa quando propõe o desenvolvimento a esse preço e mantém um ministério (MMA) que cuida de impedir que o preço seja pago. Num país de manda quem pode e obedece quem tem juízo, na efervescência de CPIs que tentam apurar corrupção, e de arranjos eleitorais tendentes a garantir a continuidade no poder, ao embalo do canto das sereias que acabam por afogar o encantado no mar das ilusões, é preciso cantar – como Orfeu cantou – para superar o fascínio, e esse canto se chama exercício da cidadania, e esse exercício quebra o paradigma de amarrar-se ao mastro e tampar os ouvidos com cera com na nave de Ulisses ((Homero, Odisséia) a conselho de Circe, a feiticeira, já à época sensivelmente inclinada a que o povo não ouça e permaneça amarrado enquanto a nave vai. Cantar a cidadania para superar o fascínio do canto das Sirenes é um exercício de democracia porque não cala as sereias – também cidadãs brasileiras – e demonstra que a Constituição tem razão: Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. |
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REFERÊNCIAS: 07FEV06 |
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